A mandiqüera…

29 de Setembro de 2007

De palavra em palavra, uma vida de escrevidão…

Arquivado em: A mandiqüera... — Nivaldo Simões @ 22:07

Há tempos a vida deste escriba tem sido uma verdadeira escrevidão, pois levo e ganho a vida escrevendo.

Sabendo disso, dona Elzbieta – minha atenta e traquejada vovó lituana – comprou e me deu de presente uma pequenina balança de precisão, para que eu pudesse nela pesar – e pesar muito bem – as palavras…

Tem-me sido muito útil o presente e, de tanto uso, a balança de vovó está puída. Está coberta de razão dona Elzbieta quando diz que:

A palavra – falada ou escrita – é a arma mais poderosa que existe e é preciso saber usá-la. Da mesma forma que as palavras adoçam a vida na forma de um poema ou declaração de amor, podem conduzir milhões à morte e a história está cheia de exemplos disso.

Escrever requer enorme cuidado.

Ao contrário das palavras faladas – às quais o vento leva –, o escrito permanece. A palavra falada é volátil como o éter, o escrito é sempiterno como a rocha.

A palavra falada é como um tiro: depois de disparada, bau-bau!… A vantagem é que nem sempre o tiro acerta o alvo…

Mas não é porque está escrita, ali, preto no branco, é que a palavra não deixa nenhuma margem à interpretação. E como deixa!…

Teoricamente, a interpretação de um texto fica 50% por conta de quem o escreve e os outros 50% por conta de quem o lê. Esses percentuais mudam – e drasticamente – por conta do sentimento de confiança, amor ou ódio que cada santo leitor tem em relação ao redator e mesmo em relação ao veículo para o qual ele escreve.

É quando o ato de escrever torna-se um verdadeiro jogo de xadrez.

Vovó, como sempre, está certíssima.

Uma fala ou texto pode ter dúzias de interpretações, dependendo também da inteligência – ou falta dela… – por parte de quem escreve. Lógico está que a regra também vale para o leitor…

Há, também, uma diferença crucial entre a palavra falada e a escrita.Quando falamos é muito difícil pesar as palavras, porque elas saem aos borbotões. Quanto mais caloroso é o debate ou o discurso, mais o cérebro fica mais aguçado, mais difícil pesar as palavras.Já o escrito é diferente, pois permite a releitura antes da publicação, daí a enorme vantagem de termos em mãos uma balancinha para pesar as palavras.

Essa vantagem cai muito quando o redator é jornalista. Isso porque, no lufa-lufa do dead-line, do fechamento da edição, às vezes nem tempo dá de dar uma relidinha, mesmo que rápida, no que se escreve.

Um perigo isso, ainda mais quando a gente se mete a escrever jogando xadrez, como no caso da coluna “No tipiti…”, no impávido jornal canalABERTO.

Polêmica, a coluna foi criada, de caso pensado, com fim específico de cutucar a onça com várias curtas e, por isso, leva reticências até no nome.

A arte do jogo de xadrez literário reside em fazer com que o leitor interprete o texto com base no que não está escrito.

Tenho duas regras para escrever o “No tipiti…”: não ofender ninguém – por mais que o caboclo mereça – e não cansar o leitor. A primeira regra eu tenho conseguido levar numa boa; enquanto que a segunda, nem sempre…

Esta semana, ao me referir a dois dirigentes petistas do arquipélago, Cláudia Kerber e Anselmo Tambelini, nominei-os de “cascas grossas do PT”.

Sei que eles - mais ele - se magoaram, mas a minha intenção não foi essa e não há porque se magoar.

Eu poderia ter utilizado as expressões “altos-comissários”, “gunga-muxiques”, “bambambans”, “maiorais”, “manda-chuvas”, “big-wigs”, “jarambandaias”, “líderes”, “caciques”, “paredros”, “figuraças”, “tutumumbucas”, “morubixabas”, “tutunqués”, “top-notchers”, “chefões”, “graúdos” e os cambaus.

Empreguei “casca grossa” que é uma expressão utilizada pelo caiçara ao se referir a uma pessoa com poder de decisão ou abonada.

Embora tenha dois pés atrás com o PT, não escondo, não é por isso que vou abrir mão da regrinha aquela de não ofender, ainda mais porque respeito e gosto da Cláudia, pessoa que tenho como amiga.

Mas aí, né, semana passada eu estava assistindo um telejornal da TV Bandeirantes, quando foi ao ar uma reportagem envolvendo a entrega de prêmios relacionada a automobilismo, e o homenageado era  Nelson Piquet, que foi à cerimônia levando seu filho temporão, com cinco anos. O apresentador da cerimônia, Otavio Mesquita, atentado que só, perguntou ao garoto se o pai Nelson Piquet falava muito palavrão. O moleque não pestanejou:

Fala muito quando está assistindo TV e aparece o Lula falando! 

O auditório veio abaixo…

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