
Mas rapaz, que aguaceiro está caindo agora, biste?
Eu moro em Ilhabela há 31 anos e não me lembro de ter visto um verão tão seco. Seco e quente. Essa semana, as chuvas parecem que resolveram fazer o que sempre fizeram no verão: chover no final da tarde e à noite. O interessante, devido às características da nossa região, é que as chuvas caem de forma totalmente diferente em ambos os lados do Canal de São Sebastião. Enquanto que no continente está o maior aguaceiro, no arquipélago mal chove; e vice-versa.
Nessa época de chuvas fortes, uma coisa que a moçada deve ficar esperta é com essa história de andar na mata sem o acompanhamento de gente experiente. O ideal é sempre estar acompanhado de gente experiente na mata, porque a gente nunca sabe quando vai chover. Existe um fenômeno, a cabeça d’água (que a molecada chama de “toddy”) que é um perigo. É quando o volume da cachoeira sobe muito e rápido. Isso ocorre em cachoeiras que ficam em grandes bacias. Às vezes onde a gente está não cai um pingo d’água, mas chove forte nas cabeceiras e a água desce toda de uma vez para a cachoeira. A correnteza fica que fica, arrastando tudo o que encontra pela frente, inclusive troncos de árvores. Negócio feio.
Em Ilhabela, as cabeças d’água costumam ocorrer nas cachoeiras da Laje, do Areado e naquela que fica no final da Estrada dos Castelhanos. Em São Sebastião, o fenômeno ocorre todos os anos no Ribeirão do Itu e no Ribeirão Cristina, o principal contribuinte do Rio Una.
Semana passada, quarenta turistas ficaram ilhados por uma cabeça d’água no Ribeirão do Itu. Essa cachoeira é punk. Todo ano mata duas ou três pessoas, pelo menos. Para fazer a trilha do Ribeirão do Itu, a gente é obrigada a atravessar a cachoeira quase trinta vezes. Não precisa ser nenhum especialista para saber que vem encrenca pela frente quando chove forte…
Na Laje a coisa também não é fácil. Há coisa de cinco anos morreu uma moça lá, tentando atravessar a cachoeira durante o “toddy”. Ela e o namorado voltavam do Bonete. Alguém colocou uma corda para ajudar a travessia do rio. Foi isso que matou ela, pois se não tivesse a corda ela não teria tentado atravessar, com certeza.
A cachoeira dos Castelhanos também não é batatinha. Já arrastou diversos veículos. Não morreu ninguém por muita sorte. O negócio é não facilitar: na dúvida, não arrisque. Mesmo em trilhas onde não existam cachoeiras, andar na mata com chuva é algo que não deve ser encarado como brincadeira. Escorregar em hora e local errado já levou um bocado de gente pro hospital e pra debaixo da terra. Todo cuidado é pouco.
…E a chuva continua mandando ver lá fora, ou seja, as coisas voltaram ao normal… Que toró!